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18 de set. de 2014

Ventania



Ali, deitada sobre o chão duro do quarto comecei a respirar você.
A consciência do teu ar entrando em mim e me alargando os poros foi de uma dureza sublime.
Respirei ofegante, como quem carrega o sopro de uma existência que já não é mais sua.
O ar, esse elemento etéreo do presente, me invadiu sem pedir licença.
O vento duvidoso de uma inicial calmaria logo evaporou.
Senti sobre o meu corpo o rabisco do vento que procura um espaço não conhecido para existir.
Uma ação sem grandes glórias e um desejo que não se sabe de onde vem e para onde vai.
Sinto que o ar é teimoso, ele insiste em aflorar pequenos delírios e grandes solidões.
Por causa de sua delicadeza, devasta qualquer vegetação imposta.
Por ser imposto, qualquer corpo vira cansaço.
Sempre que me perguntarem direi que foi assim que te conheci, sendo ventania no meu deserto.
E vivo, bem vivo!
Terno descomprometimento com o futuro.
Bem sei que encontrei você de passagem, indo ali buscar alívio e algumas doses de loucura.
De mim, sei menos.
Sei tudo quanto o amor que arde e nada além de toda essa confusão.
Viva, bem viva!
Inteira na errância de amar o que não estava no caminho.
Confundindo a língua com o grito com cheiro com a cor com o desejo com o pavor com a vontade de ser grande sem precisar sair de você. 


25 de mai. de 2013

Rumores de Ó: máquina de desfazer Psicologia.


*Ó parece transver a Psicologia. E a Psicologia, tal como fui apresentada, já esta sendo uma multidão de outras coisas que extrapolam o seu nome. É assim que a poética bruta de Ó me convoca a pensar o pensamento que eu nem tinha/tenho da Psicologia. E eu aqui com tudo isso? E tudo isso é o que? Psicologia do enfrentamento. Ele começa pela linguagem, questão nodal do pensamento. E pensamos pela língua? Signo? Somos linguagem? Operamos por quais vias do pensar? Língua, letra, grito, corpo. Psicologia da corporeidade. Aí está também a nossa relação com a verdade. Dos homens, do mundo, das gentes, do nada.

E existe Psicologia sem a noção de verdade? Nuno Ramos me exercita a pensar que as perguntas precisam ser outras, experimentar resistir ao modelo explicativo causal e partir para a compreensão dos liames da Psicologia, que são fundos (não de ocultismos) mas de profundidade, de sensações, de vida sendo vivida. Ele nos diz “Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais possibilidade de retorno pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada.” (P. 22)

Que sinais fora da linguagem são possíveis para operar a Psicologia? Essa é uma pergunta que me fiz lendo este livro. Entendendo fora como aquilo que podemos olhar, habitar e resistir, criando estratégias de enfrentamento e suspeita. “(...) estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímel em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro fechado.” (P. 23)

Isso que Nuno Ramos desenha faz ainda mais sentido nesse instante particular de minha vida. A pergunta que tenho feito nas disciplinas de TTP (sobre clínica, crítica e nossa vida mundana) é: o que nos finca no solo instransponível das nossas experiências? Como senti-las de outro modo, degustando cada insosso comprometimento de nossas vísceras, pêlo e movimentos com tudo isso? Daí, a partir dessa potência do menorizar tenho visualizado novas vazões para se fazer Psicologia.

E a leitura continuada e bagunçada de Ó vai tecendo mais uma estranheza: como o mundo desgrenhado (túmulos, galinhas, hidrelétricas, manias, espelho, teatro, erotismo ...) produz imagens de repetição e sentido? Do que aparentemente não cabia acha-se espaço, lucidez e mudança. E isso também é aprendizado para a Psicologia que fazemos nós. Diferença e repetição. O começo que vira avesso, fim e diferença, recomeço, nova história, possibilidade, novo modo de fazer. A mudança que gera criação, companhia, vontade, estado de graça, medo, coragem, tempo, Psicologia.  

Ó por isso é transgressor, escancara os adoecidos pelo tempo; eu sendo vista tão claramente na imagem de Nuno Ramos sobre a existência. “Haverá regiões da nossa própria trincheira que não dominamos?” É um livro que conversa com você, que te exige pausa. E o que a Psicologia me propõe a ser? O que ela me exige? O que eu exijo dela? “Como saber? Quem vai colocar sua cabeça pra fora e descobrir?”

Ó demite as técnicas porque sabe que o existente caminha caminhando. E que se apre(e)nde aí nesse espaço que não foi antecipado, descrito e planejado. É a taquicardia do susto. A imagem que Nuno Ramos vai construindo no decorrer do livro faz total sentido para pensarmos o curso de Psicologia (micropoliticamente) e o Mundo, Brasil, Ceará, Sobral (macropoliticamente) imbricados ao mesmo tempo; o desejo da Psicologia-ciência e a vaidade da Psicologia-mercado.

É um livro que desenha imagens para a formação humana, que transgride a lógica perversa do tempo-máquina, do tempo-valor e do tempo-alma. Ele nos vomita: “Defecamos tempo. Quem sabe apodreceremos tempo. Relógios são apenas os ícones mais explícitos: pontes, prédios, colunas, são todos dínamos de tempo acumulado, altares do grande sacrifício.” (P. 121)

O interessante é que Ó também trata de forças, das que temos e das que ficaram pelo caminho. O belíssimo fragmento Canhota, bagunça, hidrelétricas retrata o aprendizado rigoroso dos trajetos e a nossa absurda vontade de encaixe e direcionamento (o que diz dos lugares que vamos ocupando ao longo da vida e das percepções que vamos juntando em nossas lentes). Fiquei me perguntando quando, de fato, nós oferecemos esse espaço entre a bagunça e a promessa de harmonia? Como uma Psicologia é possível entre esses espaços de desordem?

Fico pensando sobre quais espaços criamos para favorecer essas outras operações de percepção e seqüestro ao que já está anunciado. Algo que culmine na liberdade da catástrofe, daquilo que “(...) abre os seres, tornando-os essencialmente relacionais, daí que os corpos e os objetos se despedacem, aceitando novos contornos, e que haja solidariedade e quebra de distância entre as pessoas.” (P. 117)  

E concluo dizendo o que pensei todos esses dias: como um livro de arte (mesmo que ele não se entregue as catalogações) pode ensinar mais do que todas as Psicologias reunidas em um só lugar?! E aqui abro espaço para que uma série de questões sejam feitas: Que Psicologias? Que modelos de ensino? O que o livro ensina que difere? Que diferenças desejamos? Enfim, questões que são ponto de partida para nós.

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RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2009.  

*Texto apresentado originalmente para o PET Psicologia UFC - Sobral. 

25 de set. de 2012

Velha história



Escapar
tirar de mim o nome que te faz viver
desenhar em mim feito sombra o que restamos.
Miúda compaixão pelo que ficamos
e viramos. 

18 de mai. de 2012

Grão

E se fujo se confunde com finjo,
o que será de minha gramática?

Demasiadamente,
fugidia e atriz.

3 de fev. de 2012

Confraria de logo cedo


















Dias inteiros desaceleram os ponteiros.
Um sossego maior que eu me acomete.
Meu ofício é o gerúndio das flores,
um despir de velhas teimosias.


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Fotografia de Usha Velasco

11 de jul. de 2011

Lacônica sem perdão.



A palavra.
sina da minha tortura,
fantasia de ardente aurora.

- Podes ventar mais forte para equivocar meus gerúndios?



4 de mai. de 2011

Foucault,Betina e este blog.

Afinal, o avesso também tem seu avesso (e não necessariamente este se constitui como o lado direito). Falar do avesso não significa se referir a outro lado, nem a algo por trás, escondido. O avesso constitui-se como o mesmo lado, algo a ser revirado, exposto, escancarado. [...] Foucault (2003) * sublinha que sempre há alguma coisa, seja no corpo social, nos grupos ou nos próprios indivíduos, que escapa às relações de poder; “alguma coisa que não é a matéria primeira mais ou menos dócil ou recalcitrante, mas que é o movimento centrífugo, a energia inversa, a escapada” (p. 244). Tal coisa, em seu entender, constitui uma idéia de avesso, de contragolpe; a todo avanço do poder corresponde um movimento para dele se livrar, o que motiva, por sua vez, o desenvolvimento de novas redes de poder.

HIILESHEIM, Betina. Entre a literatura e o infantil: uma infância. p. 93/94
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* Poderes e estratégias,1977.

28 de mar. de 2011

O que se podia chamar de pensamentos presos.


"O desejo é um espanto".
 Sabia que essa frase um dia ia chegar de súbito e cortar as vísceras da lógica, assim como quem corta uma pele sensível e dolor.
Mal sabia ela que chegado esse dia, com ele chegaria a hora de dar adeus a sua irredutível razão.
Pois desejo é desejo,criatura! - Sussurrou aquela voz celeste.
Aqui e em qualquer outra hora triste.
Chega aos espantos, rubrica qualquer pele mortal e deixa vestígios intranferíveis.
...
Dali em diante ela não ousara mais duvidar.

17 de dez. de 2010

Pelos lábios do poeta

- A raça humana gosta de manter uma distância
considerável das fezes,do lodo e do sujo,
como se a lama se ausentasse com um maior distanciamento.
 Que tolice! Essa condição não se torna, se tem!

o poeta




A encontrei caminhando entre os trilhos numa manhã chuvosa e sua figura me chamou atenção.

O cabelo escorrido pelo rosto, uma saia vermelha jogada ao corpo alto e magro e uma sacola vazia nas mãos.

Desde esse dia retornei àquele lugar diversas vezes em busca de mais acontecimentos sobre ela, essa figura de tormentas que me deixou sem paz.

Ela morava em um cubículo chulo com vista para as ruínas da estação de trem. Era algo em torno de dois ou três andares condenados, suponho ser esse o motivo de só ela habitar naquele lugar condenável.

Tudo ali era sujo e lamentável, como a carne que cobria seu esqueleto. E se não bastasse a opacidade das cores e a pouca ventilação, o ambiente era fétido e insosso, insuportavelmente inabitável, a não ser por pura necessidade.

Logo mais à direita ela dispunha da companhia do depositório de lixo da cidade, o que contribuía, mais uma vez, para a escassez de presença humana naquelas redondezas, a não ser por extrema necessidade.

Acostumou-se a vizinha de gaviões, moscas e gatos famintos. Acostumara, na verdade, a enxergar a vida por um óculos rachado, torto e de dois graus abaixo do seu. O que sempre lhe rendia alguns tropeços e uma enxaqueca de morrer.

À noite tudo tendia piorar e podia-se ouvir, se ali tivessem ouvidos, seus gemidos inexprimíveis e indecifráveis de

Medo, dor e desespero. Quem nunca experimentou morrer todos os dias na sarjeta, a mercê de ratos, odor e restos, não suporia imaginar a intensidade da condição dela.

Como enxergar alegria onde todos só enxergavam miséria?

Como contemplar o azul do céu se o que se via era tons de marrom por todos os lados e nenhuma flor pra encher os olhos?

Como respirar alfazemas e lavandas quando a obrigação dava apenas uma opção?

Tento imaginar as inquietações daquela sobrevivente e os tantos por quês que lhe rondavam a cabeça, pensamentos de todos os dias.

Mas desisti de imaginar, descrever ou supor a condição dela.

Dessa experiência, o que consigo pensar como poeta é do quanto deve ser mais fácil sonhar com aves esvoaçantes e lírios do campo quando o belo se é presente. E isso não tem mérito algum ou pelo menos não deveria ter.

Mérito é chorar todas as noites sem caber de imaginar a imensidão de um sofrimento, pulsar todas as vísceras em movimentos infindos e doloridos, e ainda assim levantar-se pela manhã, dividir a única comida que se tem com os gatos e optar pela vida.




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Dedico esse texto a muitas gentes e a uma em especial que tive o prazer de conhecer de perto.