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25 de mai. de 2013

Rumores de Ó: máquina de desfazer Psicologia.


*Ó parece transver a Psicologia. E a Psicologia, tal como fui apresentada, já esta sendo uma multidão de outras coisas que extrapolam o seu nome. É assim que a poética bruta de Ó me convoca a pensar o pensamento que eu nem tinha/tenho da Psicologia. E eu aqui com tudo isso? E tudo isso é o que? Psicologia do enfrentamento. Ele começa pela linguagem, questão nodal do pensamento. E pensamos pela língua? Signo? Somos linguagem? Operamos por quais vias do pensar? Língua, letra, grito, corpo. Psicologia da corporeidade. Aí está também a nossa relação com a verdade. Dos homens, do mundo, das gentes, do nada.

E existe Psicologia sem a noção de verdade? Nuno Ramos me exercita a pensar que as perguntas precisam ser outras, experimentar resistir ao modelo explicativo causal e partir para a compreensão dos liames da Psicologia, que são fundos (não de ocultismos) mas de profundidade, de sensações, de vida sendo vivida. Ele nos diz “Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais possibilidade de retorno pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada.” (P. 22)

Que sinais fora da linguagem são possíveis para operar a Psicologia? Essa é uma pergunta que me fiz lendo este livro. Entendendo fora como aquilo que podemos olhar, habitar e resistir, criando estratégias de enfrentamento e suspeita. “(...) estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímel em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro fechado.” (P. 23)

Isso que Nuno Ramos desenha faz ainda mais sentido nesse instante particular de minha vida. A pergunta que tenho feito nas disciplinas de TTP (sobre clínica, crítica e nossa vida mundana) é: o que nos finca no solo instransponível das nossas experiências? Como senti-las de outro modo, degustando cada insosso comprometimento de nossas vísceras, pêlo e movimentos com tudo isso? Daí, a partir dessa potência do menorizar tenho visualizado novas vazões para se fazer Psicologia.

E a leitura continuada e bagunçada de Ó vai tecendo mais uma estranheza: como o mundo desgrenhado (túmulos, galinhas, hidrelétricas, manias, espelho, teatro, erotismo ...) produz imagens de repetição e sentido? Do que aparentemente não cabia acha-se espaço, lucidez e mudança. E isso também é aprendizado para a Psicologia que fazemos nós. Diferença e repetição. O começo que vira avesso, fim e diferença, recomeço, nova história, possibilidade, novo modo de fazer. A mudança que gera criação, companhia, vontade, estado de graça, medo, coragem, tempo, Psicologia.  

Ó por isso é transgressor, escancara os adoecidos pelo tempo; eu sendo vista tão claramente na imagem de Nuno Ramos sobre a existência. “Haverá regiões da nossa própria trincheira que não dominamos?” É um livro que conversa com você, que te exige pausa. E o que a Psicologia me propõe a ser? O que ela me exige? O que eu exijo dela? “Como saber? Quem vai colocar sua cabeça pra fora e descobrir?”

Ó demite as técnicas porque sabe que o existente caminha caminhando. E que se apre(e)nde aí nesse espaço que não foi antecipado, descrito e planejado. É a taquicardia do susto. A imagem que Nuno Ramos vai construindo no decorrer do livro faz total sentido para pensarmos o curso de Psicologia (micropoliticamente) e o Mundo, Brasil, Ceará, Sobral (macropoliticamente) imbricados ao mesmo tempo; o desejo da Psicologia-ciência e a vaidade da Psicologia-mercado.

É um livro que desenha imagens para a formação humana, que transgride a lógica perversa do tempo-máquina, do tempo-valor e do tempo-alma. Ele nos vomita: “Defecamos tempo. Quem sabe apodreceremos tempo. Relógios são apenas os ícones mais explícitos: pontes, prédios, colunas, são todos dínamos de tempo acumulado, altares do grande sacrifício.” (P. 121)

O interessante é que Ó também trata de forças, das que temos e das que ficaram pelo caminho. O belíssimo fragmento Canhota, bagunça, hidrelétricas retrata o aprendizado rigoroso dos trajetos e a nossa absurda vontade de encaixe e direcionamento (o que diz dos lugares que vamos ocupando ao longo da vida e das percepções que vamos juntando em nossas lentes). Fiquei me perguntando quando, de fato, nós oferecemos esse espaço entre a bagunça e a promessa de harmonia? Como uma Psicologia é possível entre esses espaços de desordem?

Fico pensando sobre quais espaços criamos para favorecer essas outras operações de percepção e seqüestro ao que já está anunciado. Algo que culmine na liberdade da catástrofe, daquilo que “(...) abre os seres, tornando-os essencialmente relacionais, daí que os corpos e os objetos se despedacem, aceitando novos contornos, e que haja solidariedade e quebra de distância entre as pessoas.” (P. 117)  

E concluo dizendo o que pensei todos esses dias: como um livro de arte (mesmo que ele não se entregue as catalogações) pode ensinar mais do que todas as Psicologias reunidas em um só lugar?! E aqui abro espaço para que uma série de questões sejam feitas: Que Psicologias? Que modelos de ensino? O que o livro ensina que difere? Que diferenças desejamos? Enfim, questões que são ponto de partida para nós.

_______________________________

RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2009.  

*Texto apresentado originalmente para o PET Psicologia UFC - Sobral. 

3 de jun. de 2012

Convite



Esse projeto surgiu na disciplina de Saúde Pública II, a partir dos quereres dos estudantes em tentar outro modo de avaliação que não o instituído. ( uma vontade também da professora, o que é digno e que também precisa ser publicado!)
Reuniremos, portanto, todos os temas abordados ao longo da disciplina nos seminários (Patologização da família, Suicídio, Loucura e lei, Mídia e Corpo, Saúde da mulher e muitos outros do qual não me recordo agora) e os abordaremos em outros formatos. Inventamos, assim, uma exposição com o que foi discutido, problematizado e inquietado durante a disciplina. Abrimos a porta para novos modos de pensar saúde coletiva em nossa cidade. Daí veio o interesse em compartilhar isso com mais pessoas e experimentar outros locais que não a sala de aula. Sinta-se convidado em partilhar esse momento conosco. 

7 de out. de 2011

Por que a greve?


Sou estudante de graduação em Psicologia pela Universidade Federal - Campus Sobral, curso o 5º semestre dos 10 que são necessários para a formação em Psicologia. Dentre os tantos caminhos percorridos nessa travessia me deparei nesses anos de graduação, atuando no movimento estudantil, com uma luta importante e necessária a todos aqueles que reivindicam por uma formação pública com qualidade, o mover-se.
O curso de Psicologia desde sua "invenção" na cidade de Sobral passa por particularidades delicadas e tensões que se estendem até hoje à sua comunidade estudantil. Ecos que reverberam na formação de suas turmas, como: ausência de Serviço de Psicologia Aplicada (SPA) em condições de funcionamento, ausência do psicólogo técnico para ocupar o SPA; ausência de Laboratório Experimental, Biotério e bioterista, ausência de bibliografia básica na biblioteca, ausência de professores em quantidade adequada ao engresso dos estudantes nas vagas ofertadas no vestibular.
Enfim, essas são as causas de optarmos pela greve! Nos últimos meses reivindicamos essas causas de formas pontuais, sem optar pela paralisação. Fizemos passeatas, ações em rádios, jornais, porém não conseguimos, de fato, efetividade e ligeireza nas causas reivindicadas.
Assim, foi decisão em maioria do corpo discente pela paralisação das atividades por tempo indeterminado e ,concomitantemente, realização de ações em prol dos nossos direitos, pela nossa formação de qualidade. Porque GREVE = TRABALHO!
Somos cientes, portanto, que o curso de Psicologia-Campus Sobral apesar das ausências é um espaço de aprendizagem e interlocução do mais alto nível, com estudantes envolvidos nos diversos eixos da Universidade - pesquisa, ensino e extensão.   Temos pesquisas, trabalhos e intervenções apresentados, divulgados e publicados em congressos e revistas de todo o Brasil. Nossas produções acadêmicas são elogiadas em todos os encontros que participamos, nossos projetos de extensão estão espalhados por toda a comunidade sobralense: nos bairros, nas escolas, nas empresas, nos hospitais; os estagiários de psicologia ocupam diversos lugares através do saber/fazer Psi na cidade de Sobral.
Por isso, diante dessas interlocuções que não cessam apesar dos contratempos e dos espaços que nos são possíveis através da Psicologia na cidade de Sobral e região, não podemos deixar de mencionar e nos orgulhar do trabalho fabuloso do corpo docente do nosso curso, que trabalha diariamente para nosso crescimento acadêmico, profissional e pessoal. 
Somos amparados por professores competentes, que efetuam dentro e fora das salas de aulas ensinamentos éticos, metodológicos, epistemológicos, científicos, políticos e afetivos acerca dos saberes em Psicologia e das demais áreas de saber que se avizinham ao saber/fazer psicológico.
Portanto, temos grandes motivos para acreditar e lutar pelo saber que escolhemos exercer como profissão. Se reivindicamos desse modo é porque acreditamos que a Universidade Federal do Ceará tem compromissos pertinentes relativos às nossas queixas e que os quesitos reivindicados por nós são necessários para nossa formação  com qualidade em Psicologia. Afinal, não estamos pedindo mais do que nos é devido e mais do que é preciso por lei para um curso de Psicologia funcionar.


24 de mai. de 2010

Microdetalhes da vida real.


Controle.
em que lado da janela você está?
em que lugar gostaria de ficar?

Controle.
o que te prende na cadeira?
o que te conduz ao ordenar?

Controle.
É sabido que não se faz sozinho.
O não dito também pode controlar.

Controle.
Sem isentos,só tormentos.
Quem não tá ainda vai ficar!

thamila|cristina


10 de mai. de 2010

Em comum.

“Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou as suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um outro lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.”



Fernando Pessoa

15 de abr. de 2010

O avesso da multidão.


Não se assuste quando a solidão chegar,
ela em algum momento vai invadir a sua porta
vai te pegar no colo
e vai de ludibriar com palavras sedutoras.

Eu te pergunto: que mal há nisso?
Façam companhia uma outra.
saiam pra jantar
vão ver um filme badalado
sentem-se no banco da praça

riam,riam,riam de vocês
contem intimidades e frivolidades.
Não existe mal algum em ser feliz com a solidão.

Deixe ela à vontade,
ela sempre vai embora da mesma forma que chegou,
sem dar pistas.

Agradeça a visita;
E acredite: pior seria passar dia algum sem a presença dela.

                                                                                                                         

14 de abr. de 2010

ontologia desritmada.


Não quero leveza,meu bem.
quero turbilhão
e de quebra pode mandar a multidão.
Hoje eu só quero ser o que não fui
pra ver bem de perto que é essa a minha sina;
hoje eu só quero ter a coragem de ser.

O meu avesso.

29 de mar. de 2010

Confraria do amor.

Bom dia,queridos!
Hoje quero fazer uma homenagem especial para uma pessoa muito queridaaaaaaa.
E que bom comemorar a vida de pessoas queridas!
Íria,a amiga mais boneca que um dia eu ousei sonhar hoje comemora seu bârfidei e nós,parceiros corujas comemoramos juntos!
Ps. A aniversariante é essa loirinha aí,que até pra fazer careta fica phyna.


Bom,falando sério realmente.Queria postar essa homenagem a ela coisa que quase nunca faço por aqui pra registrar minha admiração e amor. Temos compartilhado momentos incríveis de crises nessa tal psicologia,mas temos feito das crises verdadeiras criações ,por que temos a parceria um dos outros!
Então,fica registrado para os meus um zilhão doze leitores o quanto me considero abençoada por ter você!
Por que a quantidade pouco importará se a qualidade não tocar o coração!

Essas fotééénhas são um pedaço do nosso universo tão particular e para nós os signos e as as bem-aventuranças representam e muito cada gotinha de suor e de alegria imperceptível no dia a dia.

Íria, um bârfidei cheio de delicadezas,amiga!

Como é bom devanear contigo,fazer do Focault um amigo íntimo e da "diva" um motivo singelo pra pequenas alegrias. Gosto da tua sensibilidade e da  sua inteligência madura,centrada e multicolorida.
Feliz aniversário, dias felizes pra você!

25 de fev. de 2010

O horror ou o absurdo de existir.

O êxtase do estado dionisíaco, com sua destruição das cadeias e limites costumeiros da existência, contém, naturalmente, durante todo o período em que dura, um elemento letárgico no qual permanece submerso tudo que a pessoa já experimentou pessoalmente no passado. Devido a esse vórtice de esquecimento, o mundo da realidade cotidiana e o mundo da realidade dionisíaca separam-se um do outro.

Porém tão logo a realidade cotidiana retorna à consciência, a pessoa a percebe como algo repulsivo. O resultado desse estado é a condição ascética, na qual a pessoa nega o poder da vontade. Neste sentido o homem dionisíaco tem similaridades com Hamlet: ambos tiveram um vislumbre da natureza essencial das coisas. Ambos passaram a compreender e têm agora aversão a agir, pois sua ação não será capaz de mudar coisa alguma na natureza eterna das coisas. Percebem como rídiculo ou humilhante o fato de que espera-se deles que coloquem em ordem um mundo que está fora dos eixos. O conhecimento neutraliza a ação, pois a ação requer um estado de consciência em que estejamos cobertos pelo véu da ilusão. É isso o que Hamlet tem a nos ensinar, não aquela sabedoria inteiramente mercenária sobre o sonhador que é incapaz de sair do lugar devido a um excesso de reflexão – devido a um excesso de possibilidades, por assim dizer.

De modo algum; é o verdadeiro conhecimento, o vislumbre da cruel verdade, que vence cada motivo que poderia impeli-los a agir, tanto em Hamlet quanto no homem dionisíaco. Agora nenhum consolo tem mais efeito. Ele passa a ansiar por algo além do mundo, algo além dos próprios deuses, na direção da morte. A existência é negada, juntamente com seu fulgurante reflexo sobre os deuses e sobre uma vida futura de imortalidade. Na consciência de ter vislumbrado uma vez a verdade, o homem vê em todo lugar apenas o horror ou o absurdo de existir; ele agora compreende o simbolismo do destino de Ofélia; ele agora reconhece a sabedoria de Silenus, o deus da floresta. E causa-lhe aversão.

Neste ponto, quando a vontade está sob o mais grave perigo, entra a arte, na qualidade de mágica salvadora e curativa. Somente a arte é capaz de transformar esses pensamentos de repulsa diante do horror ou do absurdo da existência em conceitos imaginários que permitem que a vida continue.



Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia (1872)

Retirado do blog Bacia das almas em 27 de outubro de 2008.

7 de jan. de 2010

Um conforto e tanto.

EPÍSTOLA AOS BLOGUEIROS
Fabrício Carpinejar


Nunca invejei Santo Agostinho pela sua salvação. Não conseguiria repeti-lo. Guarda-se a impressão de que ele quis se livrar da danação no ombro do Pai. Olhando de perto, ele foi mais corajoso do que conformista. Antecipou o inferno. Não esperou para sofrer na outra dimensão. Pagou à vista o inferno. Converter não é encontrar Deus, é encontrar o inferno.

Blog é prova de resistência. Um big brother ao avesso dos gêneros literários. Em vez de ser conhecido, corresponde a mergulho no anonimato. Distinto da noção do senso comum de que se trata de um lugar para aparecer. O resultado final (a possível badalação de um endereço virtual) não expõe a realidade. Os exibidos foram antes tímidos, os extrovertidos foram antes introvertidos. É a mais dolorida experiência editorial. O mais severo teste vocacional. Uma ferramenta do diabo, capaz de sugar sua vida ou sua aspiração.


Indica a fronteira entre o amador e o escritor, entre o diletante e o renitente, entre o curioso e quem não consegue se afastar da compulsão narrativa. O amador cansará nos primeiros meses. Vai deduzir que não vale a pena o trabalho, que ninguém lê. Uma tortura postar textos durante três meses e não receber nenhum comentário. São os 40 dias do deserto, com as tentações sobrevoando o teclado. "Então Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo demônio e, tendo jejuado quarenta dias e quarenta noites, teve fome" (Evangelho de Mateus, capítulo 4, versículo 1).


Você pensou que aquilo seria a glória instantânea. Caprichou na redação, no humor e nas perspectivas singulares de captura do cotidiano. Mas o único que entra no site é você. Chega a esbarrar consigo entre tantos acessos e atualizações. Uma miragem. Cada texto é um quarto vago. Procura contornar o drama. Manda um aviso de postagens para os amigos; manda um aviso de postagens para os desconhecidos, catando endereços aleatórios. Nada mais o separa de um Spam. Recebe avisos ásperos: "não o conheço" ou "favor me excluir da lista". A humilhação não começou. O desespero o obriga a fazer atos impensáveis: entrar de computadores diversos para fazer com que o contador se mexa de alguma forma. Assim como um atacante chuta a bola para as redes alheio à marcação do impedimento. Para se livrar do azar. Ainda que esteja quebrando uma das regras básicas do jogo e leve um cartão amarelo. Não há nem juiz para lhe dar cartão amarelo.


Percebe que lançou um texto com um erro gravíssimo de português. Estava na rua quando lembrou a indecisão ortográfica, longe de qualquer terminal. Corre para uma lan house, consome seu suspiro sem sentir o gosto, arruma e conclui que tampouco alguém reparou.Decide escrever qualquer coisa que continuará sendo qualquer coisa. O isolamento do blog produz alucinações. O contador de visitas parece uma bomba-relógio: anda para trás. Mas tortura é quando finalmente recebe um comentário. Alegria aflita para abrir a janela, quem será? quem será?, descobre que partiu do pai ou da mãe, solidário com sua desgraça.


Sua personalidade passará a se dividir, e não multiplicar como desejava. Sede de laranjas. Laranjas! Sem pudor, cria pseudônimos para deixar comentários (o blog, pelo menos, obriga que seja seu próprio leitor). Diverte-se no sofrimento ao inventar formas de agradecimento pelos textos. Não economiza elogios ao estilo. Estará perto da internação quando se convence de que aqueles comentários não são seus e ainda responde aos e-mails falsos. Hora do soro!


Escrever na rede é uma tentativa de suicídio. Um aviso escandaloso da nossa fragilidade. Pensando bem: publicar é um suicídio frustrado. Quando o ímpeto de sair da vida é usado para entender a própria vida e as dificuldades enfrentadas pelos demais autores.


Uma das virtudes do blog é sua provação. Agüentar os contratempos no osso. Ver que não é um elogio que o fará continuar, muito menos uma crítica que o fará desistir. Que nascer para a letra é amar a insuficiência. O escritor se sucede progressivamente. Melhora. Estar sozinho é ainda estar povoado. Povoado por dentro. Pelos personagens, pelas histórias familiares, pela observação aprofundada dos seus arredores. Só quem foi fantasma um dia poderá alimentar seus fantasmas. Procura-se um reconhecimento externo e encontra-se algo mais preciso: a afirmação pessoal na persistência. Procura-se lá fora o que já se tinha. Como diz Santo Agostinho: "Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Eis que habitáveis dentro de mim."


O esforço de sair da solidão ajuda curiosamente a fortalecê-la. Compreende que não escreve para completar um diário, ou para repetir sua história, se fosse assim não contaria com assunto para atualização semanal, mesmo que desfrutasse uma trajetória acidentada e heróica como a de Hemingway. Escreve para duvidar e se banhar na luminosidade da confusão biográfica.


Um texto postado é como um texto impresso. Mais fácil para localizar os erros, os tropeços, formar distanciamento. Confere uma maioridade na escrita, reforça uma postura profissional de jardinar e cuidar do verbo, de alterar a prosa e a poesia em nome da transparência e da fluidez. Há a formação gradual de uma assinatura, transmitindo uma visão de ser responsável por aquilo que se diz, de assumir honestamente as dívidas da boca. Organiza-se o rascunho, que é bem mais duro do que redigi-lo.


Não é fácil a rotina da blogosfera. Terá que superar vários fins, várias negativas, várias mortes. Superar a expectativa de fama pelo prazer do texto. Por isso, o prazer necessita ser mais forte do que a dor. O masoquista é o que gosta mais do sofrimento do que da carícia. O blogueiro é o que esquece a ferida pela alegria. A diferença entre guardar o inédito no blog e na gaveta: o blog é uma gaveta aberta.

18 de dez. de 2009

Outra forma de suicídio.


                                         
 Desejamos,com frequência,estar no lugar do outro!
  ps:Não raramente isso leva a morte,a pior delas,a de nós mesmos.

13 de nov. de 2009

Os muitos eus

" [...] Perguntam-me sobre a minha tristeza. Respondo: ela é filha das decepções, mas a mãe dos vários eus que convivem dentro de mim. Sou filho das dores e alegrias que me sobrevieram ao longo dos anos. Viver é isso: não deixar que as alegrias me deixem superficial ou que as dores me desfigurem pelo ódio. Lembro de Mia Couto: “Eu somos tristes. Não me engano, digo bem. Ou talvez: nós sou triste? Porque dentro de mim, não sou sozinho. Sou muitos. E esses todos disputam minha única vida. Vamos tendo nossas mortes. Mas parto foi só um. Aí, o problema. Por isso, quando conto a minha história me misturo, mulato não de raças, mas de existências”.


Nas existências que vivo, aprendo resiliência, perseverança e santa teimosia que, juntas, me animam ao imperativo de amar."

Ricardo Gondin

17 de set. de 2009

Perfeição e Proteção

Ricardo Gondin


Entre as patologias que a religião produz, a mais grave tem a ver com neurose. Os seres humanos vivem iludidos com a possibilidade de construir um mundo arredondado, previsível, sem percalços. Imaginam trazer as contingências existenciais sob controle; fantasiam encabrestar leis físicas, metafísicas, espirituais, esotéricas, cármicas, qualquer uma, para afugentar o mal e atrair o bem.
Os que acreditam em um Deus títere, que enlaçou cordões nos dedos para manipular o mundo, nem precisam dominar leis, basta ganhar o favor divino; quem conquista a simpatia celestial, vira preferido. “Deus fará qualquer coisa para deixar a vida dos seus filhos isenta de sobressaltos”, prometem. “E se por algum motivo acontecer imprevisto, basta orar com fé; Deus, que permitiu doença ou acidente, vingará seu nome com um livramento sobrenatural”.
Os sistemas religiosos monoteístas se fortalecem com esse discurso; discurso de quem conhece o segredo de agradar a Divindade. “Obedeça, cumpra, sacrifique, humilhe-se e seja bonzinho segundo a nossa prescrição e o Senhor lhe sorrirá; a sua vida vai aprumar-se”.
Israel tentou; seus líderes se revezaram para homogeneizar as ações do povo. Tudo era feito para escapar de exércitos poderosos, de epidemias que assolavam o mundo antigo, de gafanhotos na lavoura, de infertilidade feminina (os homens nunca eram responsabilizados quando as mulheres não engravidavam).
Porém, os esforços empacavam. Bastava um sair da risca para desabar a idéia da nação impecável. Abraão mentiu. Ló tomou um porre. Moisés, intempestivo, assassinou. Acã afanou o que não devia. A lista de personagens que jogaram na lata do lixo a possibilidade da recompensa por bom comportamento é longuíssima.
Buscar uma humanidade perfeita com o intuito de acabar com o sofrimento, não funciona. Homens e mulheres serão sempre sombras e luzes. Bem e mal, duas palavras que zunem como golpe de espada, também expressam a riqueza da virtude. Acabar com a ambiguidade, que mora na alma, aniquila a criatividade humana. A pedagogia que conduz à maturidade precisa acolher erro, deslizes, inadequação.
Deus não desejou criar gente absolutamente previsível, pateticamente conformada às suas leis. Ele criou para que aprendêssemos a trabalhar o vai-e-vem do coração; hora, doce, hora, amargo. Ele espera que descubramos, nas excursões para o interior da alma, a riqueza do eterno vir-a-ser.


Soli Deo Gloria



21 de jul. de 2009

Tênis x Frescobol

Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: ‘Eu te amo, eu te amo...’ Barthes advertia: ‘Passada a primeira confissão, ‘eu te amo\' não quer dizer mais nada.’ É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: ‘Erótica é a alma.’O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada - palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra - pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas; e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:‘Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: ‘Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo\'. A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: ‘Tens razão, minha querida\'. A situação está salva e o ódio vai aumentando.’Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...(O retorno e terno, p. 51.)

30 de jun. de 2009

A experiência do feijão (um ensaio sobre os sonhos)

por Clarice Casado
como João, todos temos nossos grãos de feijão, ao longo de nossas vidas. São os nossos sonhos. Guardamo-los com carinho, queremos mantê-los e cultivá-los, na esperança de um dia tornarem-se realidade, mas, de vez em quando, algumas pessoas fazem questão de jogá-los fora. Algumas pessoas não dão força aos nossos sonhos, não acreditam neles. Mas os verdadeiros sonhos, aqueles que sonhamos com muita fé, realizam-se, independentemente de mãos e pensamentos invejosos. Os verdadeiros sonhos nutrem-se e crescem sozinhos, crescem até o céu, transformam-se em realidade. Alimentam-se de nossa energia, de nossa vitalidade, de nossa vontade de fazer uma diferença no mundo. E acabam por realizar-se, fazendo com que encontremos o tão desejado prazer.

“Os poetas sentem e sabem. A psicanálise explica. Somos viajantes mesmo quando não viajamos. Viajamos sonhando, sem sair do lugar. O sonho é a viagem daquele que quer ir, mas não pode. Não pode ou por não ter barcos, ou por não saber para onde ir. Nos seus lugares mais profundos, o corpo é um navegante. Mora ali um fogo que não se apaga - Freud deu a ele o nome de “princípio do prazer”. Queremos navegar até o lugar (ou o tempo) onde encontraremos o prazer”.
Rubem Alves, Um Mundo num Grão de Areia

Quem nunca plantou um pé-de-feijão na infância que atire a primeira pedra!
A “experiência do feijão”, um desafio às jovens e ansiosas e pequenas mentes em formação (péssima palavra adorada por muitos, formação sugere colocar em uma fôrma, criar mentes exatamente iguais, fazer pequenos “bolos” de mentes infantis, coisa bem horrível!) consiste no seguinte: pegue um chumaço de algodão molhado, coloque-o em um recipiente qualquer, jogue ali alguns grãos de feijão, espere alguns dias, e, você terá um belo pézinho de feijão, em sua casa! Nunca poderá colhê-los, cresce apenas uma pequena plantinha com folhas verdes e uns brotinhos nas pontas, mas tais plantinhas deixam as crianças em uma felicidade tão contagiante, que a gente dá risada à toa, só de ver as carinhas triunfantes deles, “olha, mamãe, como o meu ‘feijão’ está grande!”.
O milagre do crescimento do feijão deve efetivamente
perturbar e maravilhar as pequenas cabecinhas dos pequenos. “Como é que só jogando uns feijões ali, naquele algodão, pode fazer nascer uma plantinha?!”; “Serão mágicas as minhas mãozinhas?”; “Sou um bruxo!”; “Será que meu irmãozinho nasceu assim também?”, “Coisa esquisita...”; “Será que se eu cortar uma folha, nasce outra no lugar?”; “Não estou entendendo nada, como um feijão pretão pode ficar verde e com folhas...?!”; e as perguntinhas fantasticamente elaboradas devem brotar e ficar dançando ali no pensamento deles, nas suas mais diversas formas. E é por isso que digo que não poderemos jamais formá-los. Eles nunca serão iguais, seus pensamentos serão sempre diferentes, seus feijões crescerão sempre de maneira única. E, daqui a pouco eles vão brincar e esquecem de tudo, pra voltar à noite, olhar pro pote de novo e dizer, “nossa, papai, o meu feijão tá muito maior ainda, acho que vai quebrar”!
Quando tinha quatro anos, meu filho plantou seu primeiro “feijão”, na escola, seguindo a tradição infantil. Plantou o feijão na terra, ao invés de no algodão, dentro de uma lata de qualquer coisa, pintada de vermelho. E o tal pé-de-feijão, que foi colocado no quartinho dele, não parava de crescer como um desesperado, pra cima (sim, era altíssimo) e para os lados também. Tomei um grande susto quando o vi: depois de uns dois dias de plantado, ele estava enorme! Pensei que nunca havia visto um pé-de-feijão “caseiro” ser grande daquele jeito. Já estava começando a meter-me medo, até.
Minha teoria (e tenho várias sobre vários assuntos...) é a seguinte: a contagiante e intensa energia infantil do quarto do meu filho alimentou o pé-de-feijão, deixando-o forte, alto e lindo. O pé-de-feijão absorveu as energias positivas da menino e de seu ambiente.
Só lembro-me de ter visto um pé-de-feijão assim em um lugar: na história do João. Sim, aquela do menino que troca uma vaca por uns feijões, na crença de serem esses mágicos. O homem que propõe a troca garante a João que os feijões são enfeitiçados. João vai feliz para casa, mas, lá chegando, é muito castigado pela mãe, que julga ter sido aquele um péssimo negócio - no que, em princípio, tem razão, já que ninguém, em sã consciência, trocaria uma vaca por uns grãos de feijão, especialmente se e época é de “vacas magras” - ninguém, com exceção de uma criança. Uma criança, aquele serzinho fabuloso e inteligente que pode ser mais criativo que dez adultos com diploma de Harvard juntos!
Pois então nosso querido Joãozinho leva os feijões para casa, toma em seguida um dos pitos mais famosos da literatura infantil ocidental, e assiste, perplexo, sua mãe (que não tinha um diploma de Harvard, mas, se tivesse, não teria feito a menor diferença) jogando os feijões pela janela da casa, furioso. João vai dormir tristíssimo com a atitude da mãe. No dia seguinte, quando acorda, João vê que os feijões brotaram e cresceram de maneira fantástica! Transformaram-se em um enorme pé-de-feijão, que se alonga até o céu, a perder de vista. João vai até o topo, onde descobre viver um gigante que possui uma galinha que põe ovos de ouro (que, descobre João, o gigante roubara de seu falecido pai). João pega a galinha, aproveitando-se de uma distração do gigante, desce do pé-de-feijão, com o gigante vindo atrás dele; chega no solo e corta o pé-de-feijão, com a ajuda da mãe. Volta para sua casa, e é recebido com saudades e culpa por sua mãe.
Fiquei pensando que, assim

23 de jun. de 2009

Acompanhado é melhor

Partilhar as próprias conquistas com um parceiro é mais prazeroso

Emoções compartilhadas – e por isso denominadas sociais – relacionadas à inveja e à alegria de obter sucesso em algum empreendimento costumam ser vividas com mais intensidade que sentimentos como alívio e arrependimento, em geral experimentados de forma solitária. Uma equipe coordenada pelo pesquisador Aldo Rustichini, da Universidade do Minnesota, Estados Unidos, usou a capacidade da pele de captar estímulos e conduzi-los ao cérebro para medir a excitação emocional de voluntários enquanto eles participavam de um jogo de loteria em duas situações: quando apostavam sozinhos e quando o faziam com um parceiro. Os cientistas descobriram que as emoções de inveja e triunfo dos voluntários (quando comparavam suas vitórias com as do outro) eram muito mais fortes que as de alívio e arrependimento (quando jogavam sozinhos). As emoções sociais parecem induzir mais resposta do córtex orbitofrontal e do gânglio basal, regiões do cérebro envolvidas com o processamento de recompensa, de acordo com dados obtidos por meio de exames de ressonância magnética funcional. Também são essas áreas que se excitam quando contamos nossas conquistas a pessoas afetivamente importantes para nós. Os testes de neuroimagem também indicam que partilhar vitórias com quem amamos pode ser tão prazeroso quanto viver o momento da conquista.
O prazer de vencer ficou acima de todas as emoções, no que diz respeito à intensidade, segundo Rustichini, que realizou o estudo com os neurocientistas Nadège Bault e Giorgio Coricelli, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França. A raiz de nosso prazer em nos destacar de forma positiva pode ser evolucionária. Entre animais, uma posição mais alta ajuda na competição por comida e parceiros; entre seres humanos o sucesso (embora nem sempre merecido) pode significar mais dinheiro e reconhecimento dos pares.


blog Mente e cérebro

17 de jun. de 2009

Somos mais sofisticados.

Paulo Brabo

A leitura de Hitler teve ajuda me deixou inquieto, e ver o texto arquivado aqui na Bacia deixou-me ainda mais. Embora Edwin Black tenha publicado alguns dos livros-denúncia mais obsessivamente bem documentados dos últimos anos, quando são expostas assim a seco, despidas de qualquer bibliografia, suas conclusões soam excêntricas e improváveis ao ponto do surreal. Com os erros dos nazistas, aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros.Como acreditar que o nazismo existiu e persistiu por mais de uma década na forma como ele o descreve? Como crer que eram seres humanos os envolvidos naquela transação?
Pesquisas como as de Black fornecem indicações de que não é à toa que associamos, inconscientemente, as atrocidades do nazismo aos pecados desumanizadores da indústria. Era ainda 1943 e o desenho animado Der Fuehrer’s Face, dos estúdios Disney, já
mostrava o Pato Donald vivendo na Alemanha nazista um pesadelo proletário debaixo de roldanas, esteiras, engrenagens e metas de produção.
Porém essas eram imagens, iconografias – talvez por demais inclementes, tendo em vista que os norte-americanos viviam naquela época debaixo de limites semelhantes e semelhantes promessas. Foram necessárias multidões áridas de documentos, como os levantados por Edwin Black, para mostrar sem equívoco o fundamento e as
estranhas irmandades por trás da representação.
Hoje podemos concluir, com horrenda sobriedade, que o nazismo era uma indústria de morte e exclusão não porque era regido por loucos sem rédea, mas porque era regido literalmente pelo espírito do capitalismo.
Henry Ford, o americano obcecado com os méritos da performance, engendrou a moderna linha de montagem e dessa forma gerou tudo no nosso mundo: de tuíteres a iPhones, de
ilustradores que vendem seu trabalho pela internet a fábricas chinesas que mais parecem campos de concentração. Adolf Hitler, o austríaco obcecado com os méritos da performance, tinha um retrato de Henry Ford em seu escritório de Munique, e dois anos antos de tornar-se chanceler revelou numa entrevista ter Henry Ford “como sua inspiração."
Essa mostrou ser uma inspiração muito literal. Os campos de extermínio assemelham-se a fábricas de matar porque foram projetados tomando como modelo fábricas de verdade. Tudo nos campos nazistas foi inspirado nas luzes do recém-canonizado capitalismo industrial: as metas, a obsessão com a produtividade e com a limpeza, as chaminés, a sincronia na entrada de insumos, a eliminação eficiente de dejetos.
Porém Henry Ford e Adolf Hitler tinham em comum mais do que uma simpatia pela eficiência e um interesse nos prêmios da mecanização. Ambos compartilhavam de uma convicção mais essencial e mais próxima à raiz dos seus discursos: a crença de que uma raça superior, que fosse capaz de demostrar sua superioridade pela excelência de seu desempenho, merecia privilégios muito evidentes que todos os inferiores deveriam respeitar. Este, que prega o mérito auto-evidente do desempenho superior, não é apenas o espírito do nazismo, como demonstrado pela História, mas o espírito do capitalismo, como ocultado por ela.
Desprezamos Hitler porque sabemos que a superioridade racial que Hitler queria ver premiada não tinha fundamento científico. Sabemos hoje que ser ariano é não ser melhor do que ninguém. A superioridade pregada por Hitler era falsa, portanto as atrocidades realizadas em seu nome declaramos ilegítimas.

Aceitamos de bom grado o capitalismo porque sabemos que a superioridade que ele quer ver premiada tem fundamento no bom senso e na igualdade de oportunidades; ser trabalhador é, evidentemente, ser melhor de quem não quer trabalhar ou não foi capaz de mostrar o seu valor. Acreditamos que a superioridade pregada pelo capitalismo é verdadeira, por isso são legítimas as atrocidades realizadas em seu nome. Quem demonstra sua superioridade pela excelência do seu desempenho merece privilégios muito evidentes que todos os inferiores devem respeitar – e crendo nisso nos cremos muito diferentes de Hitler e tantas vezes mais esclarecidos do que ele, embora fosse essencialmente nisso que ele acreditava e sendo isso o que o movia.
A questão é que depois dos erros muito evidentes e públicos do nazismo aprendemos a ocultar melhor os nossos rastros. Onde os nazistas deixaram pontas soltas, somos mais sofisticados. Ninguém deverá ser capaz de rastrear nossos cadáveres, e nossos campos de concentração produzem oportunidades ao invés de montes de cinza.
A quem ousar acusar o capitalismo de alguma injustiça estaremos prontos a lembrar que o socialismo (como se capitalismo selvagem e socialismo cego fossem as únicas opções no mercado de destinos econômicos) gerou injustiças maiores. Aos que ousarem denunciar as condições desumanas de pobres e subempregados, lembraremos que as últimas décadas testemunharam um sensível aumento nos padrões de vida do mundo inteiro, e que mesmo os mais miseráveis estão sendo de alguma forma beneficiados.
O que permanecemos ocultando habilmente, com uma habilidade que os comparsas de Hitler saberiam admirar, é que a raça superior continua a desfrutar de seus merecidos privilégios. O rótulo é diverso, mas permanecemos fundamentados na mesma ideologia e instruídos na mesma tarefa de exclusão e morte.

Poderíamos de comum acordo decidir ignorar, por exemplo, que 2% da população mundial retém metade da riqueza do mundo. Esqueçamos isso. Sou o primeiro a admitir que “riqueza” é um conceito muito fluido, e que o valor do dinheiro é puramente convencional. Em termos estritos, dinheiro não vale nada.
Muito mais grave, mais irreversível e criminosa é a realidade subjacente, o fato de que 20% da população do planeta consomem 80% dos recursos disponibilizados por eda sanidade saberão nos encontrar.le – coisas como
água potável, ar respirável, madeira nativa, minério, metais, petróleo e biodiversidade.
Os premiados pela performance – nós, os membros da
raça superior – sentimo-nos autorizados para não apenas confiscar, mas consumir numa transação sem volta os recursos que pertencem a todos.
Este é o nosso crime, e com o tempo os tribunais
da sanidade saberão nos encontrar.

minhas e dele.

Inquietações, inquietações

Ricardo Gondin


Quem são homens e mulheres para que te lembre deles? Onde te escondeste, ó Senhor, que não invades logo esse teatro de horrores? Por que não terminas com o ato macabro que se arrasta além do tempo? “Não se te dá que morramos”? O preço que cobras por nos teres criado imperfeitos não é alto demais? Existe outro mundo possível? Por que as antecipações do Reino foram imprecisas e, rapidamente, se esfarelaram em instituições adoecidas pela fome de poder?
Por que as forças do mal se reproduzem como amebas? Forçados a viver com paradoxos, os humanos sofrem debaixo da burocracia de um Estado frio; satanicamente manipulado por lógicas nobres. Mas existe uma lógica que exige o choro de criança, o luto de mãe pobre e o abandono de idoso? Tal coerência já deveria ter sido soterrada há milênios. As masmorras, os hospícios, os patíbulos, são monumentos que escarram na cara da humanidade.
Tateio em busca de respostas. Entorpeço a alma diluindo a verdade. Inebriado por quimeras, sigo iludido com a grandeza humana. Com a mão direita canibalizamos, com a esquerda, escrevemos poesia. Fazemos guerra para trazer paz. Vaidosos, nos consideramos um pouco menores que os anjos. Não vemos nossa face desfigurada; somos monstros de iniquidade.
O caminho não desemboca na estrada. O rio não alcança o oceano. A estrela não explode o universo. O tempo não fraciona a eternidade. A pergunta não esgota a verdade. O afeto não redime o ódio. A nostalgia não recupera o passado. A clemência não explica o holocausto. A ciência não alcança o inconsciente. Não há século que alivie o mal de cada dia.



Soli Deo Gloria

19 de mai. de 2009

Gaiolas e asas

Rubem Alves


Os pensamentos me chegam de forma inesperada, sob a forma de aforismos. Fico feliz porque sei que Lichtenberg, William Blake e Nietzsche frequentemente eram também atacados por eles. Digo "atacados" porque eles surgem repentinamente, sem preparo, com a força de um raio. Aforismos são visões: fazem ver, sem explicar. Pois ontem, de repente, esse aforismo me atacou: "Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas".
Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, o seu dono pode levá-las para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo.
Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.
Esse simples aforismo nasceu de um sofrimento: sofri conversando com professoras de segundo grau, em escolas de periferia. O que elas contam são relatos de horror e medo. Balbúrdia, gritaria, desrespeito, ofensas, ameaças... E elas, timidamente, pedindo silêncio, tentando fazer as coisas que a burocracia determina que sejam feitas, como dar o programa, fazer avaliações... Ouvindo os seus relatos, vi uma jaula cheia de tigres famintos, dentes arreganhados, garras à mostra - e a domadoras com seus chicotes, fazendo ameaças fracas demais para a força dos tigres.
Sentir alegria ao sair de casa para ir à escola? Ter prazer em ensinar? Amar os alunos? O sonho é livrar-se de tudo aquilo. Mas não podem. A porta de ferro que fecha os tigres é a mesma porta que as fecha com os tigres.
Nos tempos de minha infância, eu tinha um prazer cruel: pegar passarinhos. Fazia minhas próprias arapucas, punha fubá dentro e ficava escondido, esperando... O pobre passarinho vinha, atraído pelo fubá. Ia comendo, entrava na arapuca e pisava no poleiro. E era uma vez um passarinho voante. Cuidadosamente eu enfiava a mão na arapuca, pegava o passarinho e o colocava dentro de uma gaiola. O pássaro se lançava furiosamente contra os arames, batia as asas, crispava as garras e enfiava o bico entre os vãos. Na inútil tentativa de ganhar de novo o espaço, ficava ensanguentado... Sempre me lembro com tristeza da minha crueldade infantil.
Violento, o pássaro que luta contra os arames da gaiola? Ou violenta será a imóvel gaiola que o prende? Violentos, os adolescentes de periferia? Ou serão as escolas que são violentas? As escolas serão gaiolas? Vão me falar sobre a necessidade das escolas dizendo que os adolescentes de periferia precisam ser educados para melhorarem de vida. De acordo. É preciso que os adolescentes, que todos, tenham uma boa educação. Uma boa educação abre os caminhos de uma vida melhor. Mas eu pergunto: nossas escolas estão dando uma boa educação? O que é uma boa educação?
O que os burocratas pressupõe sem pensar é que os alunos ganham uma boa educação se aprendem os conteúdos dos programas oficiais. E, para testar a qualidade da educação, criam mecanismos, provas e avaliações, acrescidos dos novos exames elaborados pelo Ministério da Educação.
Mas será mesmo? Será que a aprendizagem dos programas oficiais se identifica com o ideal de uma boa educação? Você sabe o que é "dígrafo"? E os usos da partícula "se"? E o nome das enzimas que entram na digestão? E o sujeito da frase "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas de um povo heróico o brado retumbante"? Qual a utilidade da palavra "mesóclise"? Pobres professoras, também engaioladas... São obrigadas a ensinar o que os programas mandam, sabendo que é inútil. Isso é hábito velho das escolas. Bruno Bettelheim relata sua experiência com as escolas: "Fui forçado (!) a estudar o que os professores haviam decidido que eu deveria aprender. E aprender à sua maneira".
O sujeito da educação é o corpo, porque é nele que está a vida. É o corpo que quer aprender para poder viver. É ele que dá as ordens. A inteligência é um instrumento do corpo cuja função é ajudá-lo a viver. Nietzsche dizia que ela, a inteligência, era "ferramenta" e "brinquedo" do corpo. Nisso se resume o programa educacional do corpo: aprender "ferramentas", aprender "brinquedos".
"Ferramentas" são conhecimentos que nos permitem resolver os problemas vitais do dia-a-dia. "Brinquedos" são todas aquelas coisas que, não tendo nenhuma utilidade como ferramentas, dão prazer e alegria à alma.
Nessas duas palavras, ferramentas e brinquedos, está o resumo da educação. Ferramentas e brinquedos não são gaiolas. São asas. Ferramentas me permitem voar pelos caminhos do mundo.
Brinquedos me permitem voar pelos caminhos da alma. Quem está aprendendo ferramentas e brinquedos está aprendendo liberdade, não fica violento. Fica alegre, vendo as asas crescer... Assim todo professor, ao ensinar, teria de se perguntar: "Isso que vou ensinar, é ferramenta? É brinquedo?" Se não for, é melhor deixar de lado.
As estatísticas oficiais anunciam o aumento das escolas e o aumento dos alunos matriculados. Esses dados não me dizem nada. Não me dizem se são gaiolas ou asas. Mas eu sei que há professores que amam o vôo dos seus alunos.
Há esperança...

18 de mai. de 2009

A inveja

Ricardo Gondim

A inveja é a tristeza com o bem do outro. Nasce quando a excelência alheia é compreendida como diminuição do seu próprio valor. A inveja foi classificada como um dos pecados capitais pela igreja ainda no século IV, mas já constava na narrativa do Gênesis. Motivou o primeiro assassinato: Caim matou Abel porque não tolerou que o favor divino repousasse sobre a oferenda do irmão. Consta nas tábuas dos dez mandamentos que não se deve cobiçar nada do próximo.
A inveja tornou-se motriz de várias tramas literárias. Ninguém a retratou melhor do que William Shakespeare; e Otelo se destaca porque Shakespeare soube descrever como ninguém, os mecanismos que incitam ódio e ciúme a partir da inveja. Otelo é um general reconhecido por triunfar nas batalhas terrestres e marítimas. Ao assumir a posição de chefe de Estado em Chipre, nomeia Cássio como seu braço direito. Mas suscita a inveja de Iago, que passa a conspirar contra ele. As desavenças que nascem daí e que caracterizam as tragédias shakespeareanas são horrorosas.
Iago destila uma suspeita mortal em Otelo, que o faz acreditar que sua esposa Desdêmona o trai com o tenente Cássio. O conflito entre o amor que o general nutre pela mulher e a desconfiança incitada por Iago leva Otelo a despencar de sua posição de herói. Debilitado psicologicamente, mata a amada, sufocando-a com travesseiros. Declarado assassino, Otelo é destituído do posto de general e sentenciado à prisão. Sem saída, tira a própria vida com um punhal, diante dos representantes do governo veneziano.
José Ingenieros declara que “a inveja é uma adoração dos homens pelas sombras, do mérito pela mediocridade. É o rubor na face sonoramente esbofeteada pela glória alheia. É o grilhão que arrasta os fracassados. É a amargura que toma conta do paladar dos impotentes. É um venenoso humor que emana das feridas abertas pelo desengano da insignificância própria. Mesmo não querendo, padecem desse mal, cedo ou tarde, aqueles que vivem escravos da vaidade; desfilam pálidos de angústia, torvos, envergonhados de sua própria tristeza, sem suspeitar que seu ladrido envolve uma consagração inequívoca do mérito alheio. A inextinguível hostilidade dos néscios foi sempre o pedestal de um monumento”.
Santo Tomás de Aquino dizia que a inveja é pecado mortal (portanto, imperdoável), com inúmeras filhas: “murmuração, detração, ódio, exultação pela adversidade, aflição pela prosperidade”. A inveja é pior do que o ódio. O ódio não se contem, e devido a sua fúria, sempre age. A inveja por sua vez, cala. Covarde, procura sombras; para semear suspeitas, precisa do cobertor da noite. O invejoso rasteja para não mostrar-se consciente de sua pequenez. Dentro de uma tumba mal iluminada, gera a dúvida. Contenta-se com a desconfiança. Ingeniero afirma que o invejoso “sem coragem para ser assassino, resigna-se a ser vil”.
Salieri não admite que Amadeus tenha tanto talento. Constata que Mozart é um pecador desprezível e debochado, mas melhor do que ele. Salieri o encara como adversário. Incapaz de celebrar o dom que possui, passa a negá-lo no outro. Os Mozarts da vida precisam ser destruídos, mas os Salieris não serão os algozes. Como vermes, esperam a morte para finalmente festejarem a derrocada de quem o atormentava. Ingenieros diz que toda a psicologia da inveja está sintetizada em uma fábula, digna de incluir-se nos livros de literatura infantil.
“Um ventrudo sapo grasnava em seu pântano quando viu resplandecer no mais alto de uma pedra um vaga-lume. Pensou que nenhum ser teria direito de luzir qualidades que ele mesmo não possuiria jamais. Mortificado pela sua própria impotência, saltou em direção a ele e o encobriu com seu ventre gelado. O inocente vaga-lume ousou perguntar ao seu algoz: Por que me tapas? E o sapo, congestionado pela inveja, apenas conseguiu interrogá-lo: Por que brilhas?”.


Soli Deo Gloria