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25 de mai. de 2013

Rumores de Ó: máquina de desfazer Psicologia.


*Ó parece transver a Psicologia. E a Psicologia, tal como fui apresentada, já esta sendo uma multidão de outras coisas que extrapolam o seu nome. É assim que a poética bruta de Ó me convoca a pensar o pensamento que eu nem tinha/tenho da Psicologia. E eu aqui com tudo isso? E tudo isso é o que? Psicologia do enfrentamento. Ele começa pela linguagem, questão nodal do pensamento. E pensamos pela língua? Signo? Somos linguagem? Operamos por quais vias do pensar? Língua, letra, grito, corpo. Psicologia da corporeidade. Aí está também a nossa relação com a verdade. Dos homens, do mundo, das gentes, do nada.

E existe Psicologia sem a noção de verdade? Nuno Ramos me exercita a pensar que as perguntas precisam ser outras, experimentar resistir ao modelo explicativo causal e partir para a compreensão dos liames da Psicologia, que são fundos (não de ocultismos) mas de profundidade, de sensações, de vida sendo vivida. Ele nos diz “Mas talvez não importe tanto fabular sobre a origem da linguagem quanto compreender a enorme cisão que ela causou. Pois uma vez amarrada esta corda entre todos, uma vez expulsos ou mortos aqueles que não quiseram valer-se dela, não há mais possibilidade de retorno pois é próprio da mais estranha das ferramentas, da mais exótica das invenções (linguagem), parecer tão natural e verdadeira quanto uma rocha, um cajado ou uma cusparada.” (P. 22)

Que sinais fora da linguagem são possíveis para operar a Psicologia? Essa é uma pergunta que me fiz lendo este livro. Entendendo fora como aquilo que podemos olhar, habitar e resistir, criando estratégias de enfrentamento e suspeita. “(...) estranhar subitamente o som de determinada palavra como demasiado abstrato ou inverossímel em relação àquilo que designa, e o velho jogo infantil de repetir indefinidamente um mesmo vocábulo até que perca completamente qualquer ligação com aquilo que procura indicar talvez queira nos conduzir, apenas, de volta a uma época em que cada coisa tinha seu peso sinestésico, e tanto a cor como o sabor como a imagem eram o índice livre para aquele pássaro fechado.” (P. 23)

Isso que Nuno Ramos desenha faz ainda mais sentido nesse instante particular de minha vida. A pergunta que tenho feito nas disciplinas de TTP (sobre clínica, crítica e nossa vida mundana) é: o que nos finca no solo instransponível das nossas experiências? Como senti-las de outro modo, degustando cada insosso comprometimento de nossas vísceras, pêlo e movimentos com tudo isso? Daí, a partir dessa potência do menorizar tenho visualizado novas vazões para se fazer Psicologia.

E a leitura continuada e bagunçada de Ó vai tecendo mais uma estranheza: como o mundo desgrenhado (túmulos, galinhas, hidrelétricas, manias, espelho, teatro, erotismo ...) produz imagens de repetição e sentido? Do que aparentemente não cabia acha-se espaço, lucidez e mudança. E isso também é aprendizado para a Psicologia que fazemos nós. Diferença e repetição. O começo que vira avesso, fim e diferença, recomeço, nova história, possibilidade, novo modo de fazer. A mudança que gera criação, companhia, vontade, estado de graça, medo, coragem, tempo, Psicologia.  

Ó por isso é transgressor, escancara os adoecidos pelo tempo; eu sendo vista tão claramente na imagem de Nuno Ramos sobre a existência. “Haverá regiões da nossa própria trincheira que não dominamos?” É um livro que conversa com você, que te exige pausa. E o que a Psicologia me propõe a ser? O que ela me exige? O que eu exijo dela? “Como saber? Quem vai colocar sua cabeça pra fora e descobrir?”

Ó demite as técnicas porque sabe que o existente caminha caminhando. E que se apre(e)nde aí nesse espaço que não foi antecipado, descrito e planejado. É a taquicardia do susto. A imagem que Nuno Ramos vai construindo no decorrer do livro faz total sentido para pensarmos o curso de Psicologia (micropoliticamente) e o Mundo, Brasil, Ceará, Sobral (macropoliticamente) imbricados ao mesmo tempo; o desejo da Psicologia-ciência e a vaidade da Psicologia-mercado.

É um livro que desenha imagens para a formação humana, que transgride a lógica perversa do tempo-máquina, do tempo-valor e do tempo-alma. Ele nos vomita: “Defecamos tempo. Quem sabe apodreceremos tempo. Relógios são apenas os ícones mais explícitos: pontes, prédios, colunas, são todos dínamos de tempo acumulado, altares do grande sacrifício.” (P. 121)

O interessante é que Ó também trata de forças, das que temos e das que ficaram pelo caminho. O belíssimo fragmento Canhota, bagunça, hidrelétricas retrata o aprendizado rigoroso dos trajetos e a nossa absurda vontade de encaixe e direcionamento (o que diz dos lugares que vamos ocupando ao longo da vida e das percepções que vamos juntando em nossas lentes). Fiquei me perguntando quando, de fato, nós oferecemos esse espaço entre a bagunça e a promessa de harmonia? Como uma Psicologia é possível entre esses espaços de desordem?

Fico pensando sobre quais espaços criamos para favorecer essas outras operações de percepção e seqüestro ao que já está anunciado. Algo que culmine na liberdade da catástrofe, daquilo que “(...) abre os seres, tornando-os essencialmente relacionais, daí que os corpos e os objetos se despedacem, aceitando novos contornos, e que haja solidariedade e quebra de distância entre as pessoas.” (P. 117)  

E concluo dizendo o que pensei todos esses dias: como um livro de arte (mesmo que ele não se entregue as catalogações) pode ensinar mais do que todas as Psicologias reunidas em um só lugar?! E aqui abro espaço para que uma série de questões sejam feitas: Que Psicologias? Que modelos de ensino? O que o livro ensina que difere? Que diferenças desejamos? Enfim, questões que são ponto de partida para nós.

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RAMOS, Nuno. Ó. São Paulo: Iluminuras, 2009.  

*Texto apresentado originalmente para o PET Psicologia UFC - Sobral. 

7 de jan. de 2012

Se era verbo, se era canto

Uma nova tag subiu no blog desde o post anterior - Resenhas de livros. Há algum tempo , leia-se últimas semanas, resolvi relatar minha impressão sobre alguns dos livros que li ou que tinha terminado de ler recentemente. Inicialmente publiquei  lá no Skoob e agora decidi compartilhar aqui no blog também. Não são resenhas formais, longas, detalhadas, mas é algo mais intimista, com  minhas impressões e relatos sobre como fui afetada por esses livros.  

Escritos em verbal de Ave,
Manoel de Barros.
Editora Leya.

Esperei o novo livro do poeta matogrossensse Manoel de Barros durante muitos dias. Houve um contratempo no sebo onde encomendei o livro e tive que esperar mais tempo do que o habitual para chegar minha encomenda. Em se tratando de aguardar um lançamento de Manoel de Barros tudo se alarga em proporções bem maiores,  tamanha a ansiedade.
Manoel de Barros é o poeta que mais leio atualmente, tenho tido um carinho bem grande com suas obras, acho que sua poesia nos fornece subsídios para pensar muitas coisas do nosso tempo, que não se esgotam, não fenecem, mas lampejam em cada nova olhada, em cada novo amanhecer.
E, seguindo a subversão que lhe é de costume, Manoel de barros sur-preende nesse novo livro.
É como se o livro entardecesse logo na capa. O azul com o alaranjado elevam o tempo pra alguma hora triste. Triste não, poética! (por que o poético é mais infante na imaginação).
É assim que Escritos em verbal de ave me rapina e me ganha logo na entrada. É um deslivro, pra começo de conversa.
Não tem forma de livro e nem pretende ser um, pelo conteúdo que gorjeia.
É uma desbiografia de Bernardo, o amigo de Manoel que não falava o verbal rotineiro mas que carinhava o verbal de ave como vocação.
Com reverência a uma hora poética, Manoel vai entoando o amigo Bernardo pelos versos, pelo livro abrindo em desmedida e pelos cantos do papel desabrochando ali na frente do leitor voraz, esfomeado de suas sutilezas.
Manoel me lembrou Cortázar, pelas desformas, pelo labirinto de sentidos e cujo projeto gráfico do livro contemplou de forma acertada. No fundo tive a impressão também de que os versos soltos e alheios de Manoel eram um bilhete, daqueles que a gente deixa pelos cantos da casa, à procura de algum olho que veja, que sinta, que socorra nosso lamento.
O livro é um canto ao amigo, uma saudade. E toda saudade, por si só, já é digna de muito apreço.

6 de jan. de 2012

Um livro fabuloso

                                                                     
                                                                
Gilles Eduar é antes de tudo um leitor de fábulas. Isso, em conjunto com suas generosas doses de talento, faz desse livro um inusitado encontro. Diálogos Fabulosíssimos reconta 20 fábulas de um forma, digamos, peculiar.
 Gilles traz a tona uma suposição interessante ao universo da fábula: 'E se resolvêssemos contá-las de outras formas, que não pela 'ordem' da moral e do que está instituído?' Assim, fugindo do sonolento politicamente correto que inunda as histórias destinadas às crianças atualmente, o autor subverte e produz outros sentidos para as fábulas.
Temas como morte, disputas, gênero, laços sociais, regionalidades e tantos outros povoam o livro desse escritor e ilustrador. Na leitura nota-se a profundidade de Gilles com as histórias, que nos mostra com cuidado e a honestidade como que cada uma delas foi recriada, e mais, nos convoca a todo tempo  a participar da brincadeira. Seja nos diálogos propositivos ou nos questionamentos provocativos.
Fora o texto o livro traz ilustrações do próprio autor e essa é outra linguagem interessante do livro, da qual podemos analisar as através das imagens as subversões qu o autor propõe das fábulas.
Gilles fecha o livro com uma breve resenha de cada uma das fábulas ali contempladas.
Bem, a obra é uma grata surpresa, que não se esgota apenas na leitura, mas nos leva a revisitar nossas visões de infância, de moralidade, de ética ... enfim, um prato cheio e saboroso de uma literatura pra todos!



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Resenha publicada inicialmente no Skoob