Acabou sereno e com uma dose de entrega, de alívio, de tristeza e de esperança.
Acabou de começar.
Acabou para a gente derivar.
Do que gorjeia minha lembrança sinto que tivemos uma noite espetacular...
como deveriam ser todas as noites de despedidas.
Na noite do fim introduzimos um novo passo na dança,
descobrimos mais uma parte do corpo, do ritmo, do olho, do gozo.
Um último encontro como princípio.
Durou e findou.
Vento em revelia em um mundo de mística exaustão.
Ficamos aos pedaços.
Deu vontade de chorar. E choramos.
Deu vontade de calar, E calamos.
Deu vontade de amar. E amamos.
Deu vontade de partir. E partimos.
deus-vontade, deus-abismo.
Mostrando postagens com marcador ; Grito miúdo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ; Grito miúdo. Mostrar todas as postagens
27 de set. de 2014
deus-vontade, deus-abismo.
18 de set. de 2014
Ventania
Ali,
deitada sobre o chão duro do quarto comecei a respirar você.
A
consciência do teu ar entrando em mim e me alargando os poros foi de uma dureza
sublime.
Respirei
ofegante, como quem carrega o sopro de uma existência que já não é mais sua.
O
ar, esse elemento etéreo do presente, me invadiu sem pedir licença.
O
vento duvidoso de uma inicial calmaria logo evaporou.
Senti
sobre o meu corpo o rabisco do vento que procura um espaço não conhecido para
existir.
Uma
ação sem grandes glórias e um desejo que não se sabe de onde vem e para onde
vai.
Sinto
que o ar é teimoso, ele insiste em aflorar pequenos delírios e grandes solidões.
Por
causa de sua delicadeza, devasta qualquer vegetação imposta.
Por ser imposto, qualquer corpo vira cansaço.
Sempre
que me perguntarem direi que foi assim que te conheci, sendo ventania no
meu deserto.
E
vivo, bem vivo!
Terno
descomprometimento com o futuro.
Bem
sei que encontrei você de passagem, indo ali buscar alívio e algumas doses de
loucura.
De
mim, sei menos.
Sei
tudo quanto o amor que arde e nada além de toda essa confusão.
Viva,
bem viva!
Inteira
na errância de amar o que não estava no caminho.
Confundindo
a língua com o grito com cheiro com a cor com o desejo com o pavor com a
vontade de ser grande sem precisar sair de você.
Estocado em
; Grito miúdo,
Diz respeito a nós,
Entre,
Outra conjugação
25 de mai. de 2013
Ator do instante*
**O espaço em branco desta folha me convoca a
habitar algum lugar. Resisto. É como se
tivesse nada a declamar ou não quisesse fazê-lo. Logo eu, de tantas palavras, sons e
desatinos. Paro um pouco de modo a me concentrar no quero pronunciar.
(...) Mas
não é concentração que desejo. Vou seguindo, deixando as palavras me
escreverem, criando rastros do que nem sei que pode vir a ser. Escrever o que se passa. Parar.
Um convite que soa como assombração e refrigério.
Esse papel e eu, uma
relação incomum de conexão. Sigo, já não sou a mesma do último suspiro. Meu corpo não cabe na cadeira que me
sustenta, faço flexões, sinto estremecer algo com muita vida dentro de mim.
Ossos, fibras, estalos, dedos, sangue, vontade de levantar e escrever um pouco
mais como me sinto nesse ato de envolver-me em palavras. Eu ainda resisto,
penso na insuficiência do meu corpo, da falta de palavras arranjadas, da
conexão racional do que envolve dizer algo a alguém.
Esse abismo que pulsa,
essas gentes que olham, esse corpo que não reage, essa folha que tem que ser
escrita. Tudo me atravessa nesse instante. E a próxima palavra, quem vai
pronunciar? Estranho escrever sozinha o que logo mais será de uma multidão. Sinto
o tempo.
A imagem do tempo é o que está entre nós.
Haja tempo para eu me refazer em você, para olhar você, suspirar por você. Quem
é você? Zona de tensão entre o que eu penso de mim e o que escrevo.
Escrever é
também andar, mover-se devagarinho adiante, conectar-se com outro passo e
outros pés e outros céus. Andar é colocar em funcionamento as articulações, é
espreguiçar-se, é sentir o tempo sendo corpo e o outro sendo a gente.
Tudo
tanto. Quero menos.
______________________
* Título extraído da página do facebook de "Eu me chamo francisco"
**Texto apresentado originalmente na aula de TTP II - Psicologias Humanistas.
Estocado em
; Grito miúdo,
caderneta,
Entre
20 de abr. de 2013
Itinerário.
Sai hoje cedo com um trapo do tamanho do meu cansaço,
percorri a viela ainda ardendo pela sua ausência
e pensei em ti como se pensa em lobos na floresta.
Tinha cansaço para dez vidas,
mas nenhuma para gastá-lo até o fim.
Andei como quem cavalga.
Olhei para os muros, para as janelas e para os sem-tetos.
Permaneci exausta por dez vidas ou mais.
percorri a viela ainda ardendo pela sua ausência
e pensei em ti como se pensa em lobos na floresta.
Tinha cansaço para dez vidas,
mas nenhuma para gastá-lo até o fim.
Andei como quem cavalga.
Olhei para os muros, para as janelas e para os sem-tetos.
Permaneci exausta por dez vidas ou mais.
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.,
Aquele detalhe
15 de mar. de 2013
Nota sobre a escassez
Um escasso respiro para o que bagunça. Não te tenho todo amor do mundo, já é bom que saibas disso pelo começo. Desse mundo outro, cruel, estranho e entupido de gente ácida. Mas te tenho amor, talvez cólera, talvez viço. O que em mim cabe todos os tempos do relógio parado da tua sala de estar. Te tenho em mim. Guardo, rezo, rompo. A mim te dou quase sempre, quando posso ser também de outros gestos. Somos, juntos, bem menos que o amor todo desse mundo duvidoso. Por mistério, não queremos todo o amor que há nessa vida. Tão menos. Talvez sumir. Ficar em ti como poeira, que acha beleza em fazer-se companhia para as narinas do universo. Grão. de nós dois por aí aprendendo que amor é coisa pouca, pois grande mesmo é partir. Tão. sua-minha-sina. Nossa história esquecida para todas as gerações que virão. E daí? Vive-se tão pouco para virar posteridade. E preocupa-se tão muito com o amor e suas variações. Por sorte, delicadeza ou reafirmado mistério, tu és meu escasso respiro para o que bagunça.
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.,
Entre
1 de mar. de 2013
.
É como se os sentidos que
devastam meu cérebro caduco me dissessem que o abismo está a um palmo. Pula.
Algo com outra vida vai existir e você vai extrapolar a si. Quem (si) importa? Quem
aguenta ser outra coisa? É de aguentar que eu falo, roer todos os olhos e ruir
todos os caminhos que foram pensados. Não pensar. Pelo menos até que você se
perca, se enrosque no fio invisível da dúvida e desaprenda a viver o que te ensinaram
a ver. Ir e esquivar. Fuga de quem
se encoraja existir. Voltar mais uma vez o pulo, o rastro, a dança, a beira. Já não sei das forças que tenho, cansei e perdi a noção do tamanho do buraco
onde deixei a coragem.
--
14 de fev. de 2013
O desejo e depois...
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.,
Em movimento,
Entre,
Fotograf(ando),
silêncios
13 de fev. de 2013
Daquilo que some feito pó.
Estocado em
; Grito miúdo,
Aquele detalhe,
caderneta,
Em movimento,
Entre,
Fotograf(ando)
6 de jan. de 2013
Bocejos
Estocado em
; Grito miúdo,
bocejos,
Em movimento,
Fotograf(ando)
5 de jan. de 2013
Bocejos
Estocado em
; Grito miúdo,
Em movimento,
Fotograf(ando)
Bocejos
Estocado em
; Grito miúdo,
Em movimento,
Fotograf(ando)
Bocejos
Estocado em
; Grito miúdo,
Céu de circo,
Fotograf(ando)
24 de set. de 2012
Anatomia de um instante
Estou a começar. A condição da luz está a favor, o copo com água pela metade já faz marca na madeira, a música de suave estridência já se põe a tocar e minha mãos livres, presas a uma caneta, começam a principiar seu ofício.
Pelo sangue que corre nos vasos sinto que a minha cabeça trabalha mais que minhas mãos. Mas sustento que é de algum outro lugar marginal que martela o princípio da minha ideia. Uma posição dentro de um cenário, uma cor de cabelo vibrante, um lapso de memória, um cordial homem viajante para assumir o gosto do personagem, a invenção de um poste no meio do caminho, uma tosse, uma perna dançante. (...) Enfim, elementos que darão carne e vigor para essa ilusão.
E apesar de já ter começado, sinto como se desejasse um início mais mirabolante, algo que já anunciasse uma ocasião, que despontasse um culpado, uma amante, um vilão. Falta entendimento. Apago. Começaria de outro tom, com náuseas escuras, com um vento forte, com uma radiola tocando uma música incrédula e agonizante. Isso, isso seria um começo. Espalharia pelo chão uns jornais do amanhã e deixaria que eles engolissem o espaço, com suas notícias, com seu obituário e com seus classificados.
E já com luzes brandas ela pegaria um pincel generoso em grossura e começaria a dançar com o som tocando ao fundo.
E já com luzes brandas ela pegaria um pincel generoso em grossura e começaria a dançar com o som tocando ao fundo.
Gosto da ideia dos seus pés nus, sujos, fazendo um esforço pra pegar o pincel do chão. Gosto do pincel vacilando no chão, caindo em todas tentativas, rindo do pé que o tenta. Gosto mais ainda do ritmo ofegante que mantém o que fraqueja. Coragem!
Ela não se abate, rasteja com os pés a tatear um outro instrumento que a possibilite sair da monotonia das letras. Presa naquele cubículo com letras arranjadas em preto e branco não consegue mais ter amor pelas palavras. Só sente vertigem pelas letras dispostas de futuro e fincadas de uma velha idade.
Ela não se abate, rasteja com os pés a tatear um outro instrumento que a possibilite sair da monotonia das letras. Presa naquele cubículo com letras arranjadas em preto e branco não consegue mais ter amor pelas palavras. Só sente vertigem pelas letras dispostas de futuro e fincadas de uma velha idade.
No canto direito haverá algumas tintas. Frescas. Em baldes aleatórios e desiguais de tamanhos. Ela pisa em um desses baldes e tintas respingam ao seu redor. Faz uma cara de gozo pela sensação de tocar seus pés desnudos e sujos naquela poça fresca, líquida e em temperatura ambiente.
Gloriosa, retornará ao pincel com um destemido olhar de superioridade. Reinando sobre aquele instrumento toda sua raiva e desprezo.
Venci, dirá com os gestos uma única vez. Mesmo que seu inimigo jamais compreenda sua linguagem de orgulho frente um anterior fracasso. Esse é um divertimento que pertence tão somente às almas que um dia foram provadas, esquecidas, ignoradas ou diminuídas. Passo de uma dança que só satisfaz a si.
Gloriosa, retornará ao pincel com um destemido olhar de superioridade. Reinando sobre aquele instrumento toda sua raiva e desprezo.
Venci, dirá com os gestos uma única vez. Mesmo que seu inimigo jamais compreenda sua linguagem de orgulho frente um anterior fracasso. Esse é um divertimento que pertence tão somente às almas que um dia foram provadas, esquecidas, ignoradas ou diminuídas. Passo de uma dança que só satisfaz a si.
A sua monotonia voltou tão ligeiro quanto a tinta secou no papel e podia-se ver entre as brechas que não estavam pintadas ainda muitas letras em preto e branco opulente, mesmo que agora incompletas, rabiscadas e encarnadas de respingos raivosos. Apagaram-se? Podia-se dizer que vencido estava o amanhã?
Não se sabe e não se nota ânimo algum em sua figura. Ficou suspensa como quem vence uma batalha anunciada.
Já o pincel, inerte como uma letra vazia ou como uma tinta isolada respingada no chão, continuou a afrontá-la e a remoer o seu fracasso (mesmo que sem nervos para isso).
Ela pensou em desafiá-lo novamente, só pra sentir seu sangue escorrer pelas veias com algum sentido pra viver, mas já estava tarde e a tinta da caneta também já falhava.
--
Não se sabe e não se nota ânimo algum em sua figura. Ficou suspensa como quem vence uma batalha anunciada.
Já o pincel, inerte como uma letra vazia ou como uma tinta isolada respingada no chão, continuou a afrontá-la e a remoer o seu fracasso (mesmo que sem nervos para isso).
Ela pensou em desafiá-lo novamente, só pra sentir seu sangue escorrer pelas veias com algum sentido pra viver, mas já estava tarde e a tinta da caneta também já falhava.
--
Ilustração de Erika Kuhn - http://erikakuhn.blogspot.com.br/
Música de fundo: http://www.youtube.com/watch?v=WHRR7ZnIcMs
Música de fundo: http://www.youtube.com/watch?v=WHRR7ZnIcMs
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.,
Em movimento,
ilustrações,
Musicando
29 de ago. de 2012
Olho que tudo vive
.
A beleza de um dia (desse já gasto)
esteve nas horas perdidas com saliva e respiros;
e no teu português surrado, jogado a própria sorte,
mambembe de amor por aquele que esteve a ouvir,
a falar e a sentir
.
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.
6 de ago. de 2012
Sobre a estranheza de uma música ardente
É tarde. No relógio, nas turbinas e na tal intensidade.
Sim, faz um tempo considerável que eu não venho tirar as poeiras que se amontoam por aqui. Ando sem pressa mas com muita fome.Vivendo ao vento apesar de achar que ele tem batido forte demais na minha janela.
Muita calma. Seguiremos adiante.
Foi assim que me chegou aos ouvidos Sigur Rós. Agora você imagina porque eu simplesmente amei essa banda islandesa que dança com os instrumentos e faz uns barulhos parecidos com os meus e com os do vento que bate na minha janela.
Se minha vida tem uma trilha, melhor dizendo, se essa tomada da minha vida tivesse alguma trilha com certeza eles estariam lá com seus elementos etéreos.
Apesar de muito íntimo ( essa conexão de forças que findam em um som agradável ao ouvidos e ao coração) suponho que o blog tem esse quê de intimidade e que vocês ( que eu não sei o tamanho da pluralidade) mereciam também se esbarrar com o som deles.
Já aviso: Sigur Rós tem vocais mas é em grande parte instrumental. Ah, também espalham por aí que eu tenho um gosto musical duvidoso e um ouvido peculiar (minha irmã lê como estranho) para os sons tal como tenho para os sentimentos e suas afetações.
Eu gosto de ser assim e fico espantadamente feliz por saber que lá na Islândia (que é longe pra dedéu do meu Ceará) tem umas pessoas tão estranhas quanto eu que fazem uma música danada de boa pra desassossegar a alma.
Não é espantoso que de tão longe chegue tão perto?
Eu acho e me perco.
Espero que gostem!
Baixei o disco deles aqui.
Para acessar a página deles no facebook é só clicar aqui
E abaixo tem um videoclipe incrível da Música Hoppipolla.
Estocado em
; Grito miúdo,
Em movimento,
Musicando
23 de mai. de 2012
Eu queria te gritar
Raivosa, Pilar se destituiu de suas vestes ensanguentadas e respirou um profundo desprezo pelas pessoas contentes. Com um instrumento cortante imbicou suas carnes e dilacerou o que restava daquele pesar.
Boca, seio, sangue.
Ódio, rima, cão.
Ardia em si pelo incômodo que lhe afetava naquela madrugada, mas não torcia os braços por nada que não merecesse seu grito.
Imponente, a sua guerra anunciava paz.
E quem se acostuma a guerrear todas as horas não se contenta com o avesso do caos.
Com jeito despiu a roupa de cama, sujou a toalha de limpeza e forçou um sono justo.
Lá permaneceu com vontade de gritar.
Não o fez. Não torceria seus braços por nada.
Ali fez um ninho.
De raiva, de medo, de rima.
Boca, seio, sangue.
Ódio, rima, cão.
Ardia em si pelo incômodo que lhe afetava naquela madrugada, mas não torcia os braços por nada que não merecesse seu grito.
Imponente, a sua guerra anunciava paz.
E quem se acostuma a guerrear todas as horas não se contenta com o avesso do caos.
Com jeito despiu a roupa de cama, sujou a toalha de limpeza e forçou um sono justo.
Lá permaneceu com vontade de gritar.
Não o fez. Não torceria seus braços por nada.
Ali fez um ninho.
De raiva, de medo, de rima.
Estocado em
; Grito miúdo,
Pilar
18 de mai. de 2012
Grão
E se fujo se confunde com finjo,
o que será de minha gramática?
Demasiadamente,
fugidia e atriz.
o que será de minha gramática?
Demasiadamente,
fugidia e atriz.
Estocado em
; Grito miúdo,
A-gramática.,
Outra conjugação
Assinar:
Postagens (Atom)




